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MENSAGEM AOS VISITANTES DO BLOG

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domingo, 3 de abril de 2016



Húmus Do Silêncio…

Ou:
Como que…
num destino pendular




M. Gama Duarte / 2016
(Instalação / Cenário)

Título:
Dos húmus do silêncio
Plano 1

























M. Gama Duarte / 2016

Titulo:
O céu no encontro da paisagem - 1 



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Orlando já não é homem novo…

Hoje ele olha para as suas mão e repara que a pele já não é a pele dos seus vinte e dos seus trinta.  
(Certo é que Orlado nunca foi de manter grandes cuidados com a pele…). E desse olhar sobre as suas mãos até dar conta de que os punhos da camisa avantajadamente lhe cobrem os pulsos é um ápice. Mas nada neste último particular em que reparou ele encontrou de estranho… Ou seja: aos seus olhos não é estranho que os braços há muito não lhe cresçam… pois é natural que a quem quer que seja os braços não cresçam em semelhante idade…
Por outro lado, a camisa que Orlando veste é de bom tecido e por essa razão o contacto com a água não lhe encurta o tamanho.
Todavia os punhos da sua camisa ganharam já um certo arruçado… O relógio de pulso que um amigo de longa data lhe ofereceu como prenda de aniversário faz atrito no punho esquerdo e os efeitos do sal da transpiração, com o tempo, vão ganhando algumas proporções.
A camisa abre-se-lhe também um pouco a meio do peito porque ao vesti-la de manhã um botão saltou e o dito jamais regressará sozinho ao sítio.

Vai em três anos o tempo que já deu de uso àquela sua bonita camisa. De entre as demais da “colecção” que tem no seu guarda-fatos é a preferida… e a que mais vezes vestiu até hoje.
Orlando sempre preferiu camisas assim às listras em tons de escuro...
Comprou-a no Porto, num Centro Comercial (lembra-se bem ao pormenor dessa compra). Era a única que havia daquele modelo e padrão. Por sorte era o número que lhe servia.
A funcionária da loja retirou-a do expositor da montra; Orlando experimentou-a (gostando de se ver ao espelho com ela); pagou o preço marcado na etiqueta e saiu radiante com a sua mais recente aquisição.
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M. Gama Duarte / 2016
Titulo:
No esquecimento - 1












M. Gama Duarte / 2016
Titulo:
No esquecimento - 2


M. Gama Duarte / 2016
Titulo:
No esquecimento - 3















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M. Gama Duarte / 2016
(Instalação / Cenário)

Título:
Dos húmus do silêncio
Plano 2

E hoje ali vemos Orlando (que o facto não é caso para admiração…). Ali se sentou na esplanada daquele pequeno café de bairro. (É o bairro para onde há anos se mudou após se ter casado. E lá constituiu família).







Hoje calhara ali, naquela esplanada, Orlando encontrar-se a só consigo próprio.
O tampo das mesas (mobiliário novo) é de um tom cinza claro, e ao centro apresentava-se um estampado que anunciava uma marca de refrigerante que não faz parte dos da simpatia de Orlando Não foi logo à chegada que Orlando deu atenção à imagem colorida que se apresentava ao centro sobre o cinza claro de fundo do tampo da mesa a que se sentara… mas apercebera-se nitidamente depois a que produto se referia a publicidade… e apenas através de uma ponta da facha publicitária que espreitava por debaixo da folha de papel onde ele ia fazendo apontamentos à medida que as ideias lhe saltavam.

Orlando bebia um café que havia pedido sem se ter esquecido de recomendar que lho trouxessem bem quente e servido em chávena de vidro grosso.
…



M. Gama Duarte / 2016
(Instalação / Cenário)

Título:
Dos húmus do silêncio
Plano 3

Passara o tempo, e entrementes o que restava do café havia arrefecido… E, à parte, ainda uns resquícios de tosta, salpicando o pires de loiça, que os pardais em redor foram cobiçando, e que Orlando, a certa altura, boamente lhes dispensou. 

Entre a folha de papel e a ponta da esferográfica de Orlando, não raras vezes se esboçam solitários e expressivos traços… fazendo estes  lembrar a forma como se expressam os espíritos caloiros nos primórdios do conturbado percurso lectivo da existência e da Universidade da Vida…


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M. Gama Duarte / 2015
Titulo:
Abandono














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M. Gama Duarte / 2016
Mas Orlando tem as fieis pedras da calçada que não rejeitam os seus passos… e assim Orlando vai caminhando… e caminhando… Caminhando sempre.



Orlando tem agora à sua direita a baía (poetas, historiadores, fotógrafos, cartógrafos, ambientalistas e demais especialista, denominam esse santuário natural de O Sapal).




M. Gama Duarte / 2015
Avista-se de todas as suas margens um antigo moinho de maré que ao largo existe desde o século XV. É sobre esse leito (de reserva natural) que assentam os alicerces do antigo moinho. E relativamente aos sapos, são mais as vezes que Orlando os ouve que as vezes que se exibem aos seus olhos… E, por outro lado, a Orlando dão especial prazer os momentos em que concede alas aos seus sentidos (atento de olhos; atento de ouvidos; atento todo ele num estonteante galopar de Pégaso)…


…É o acordar das manhãs, o acordar das tardes… o cada anoitecer… E a expectativa (ou o esperar com a certeza de que…) de uma serena lava de aguarelas sobre a qual se animam os tons de rosa dos bandos e mais bandos de pelicanos que graciosamente vão chegando à baia… E o mais a ver é o enigmático e incontornável espelho de água, que à vista tudo nele se reflecte, ou se vai repetindo.
…



M. Gama Duarte / 2016
Orlando tem as pedras da calçada que não rejeitam os seus passos… e lá vai ele subindo… subindo.
À sua direita a baía. E de quando em vez um arrepio doce na alma que lhe faz desejar que a calçada seja mais íngreme ainda para que o seu eu se demore mais um pouco na ascendente peregrinação…
…




Há dias em Lisboa, lá para os lados da Estefânia, Orlando pensava (e partilhou verbalmente esse pensamento com a sua mulher, que o acompanhava):
– “Caminhamos… vamos caminhamos sobre os passeios desta nossa cidade-natal… (somos gente – somos pessoas…). E vamos andado… e vamos parando ora aqui ora ali… (nos passeios é normal caminharem as pessoas…). Mas os mesmos passeios também os partilhamos com as árvores. No nosso caso vamos andando… e mesmo que paremos retomamos o trilho da nossa caminhada… Ao contrário, as árvores ficam para traz… – as árvores permanecem porque têm o seu lugar fixo nos canteiros onde se habituaram a crescer, e vivem.”
…


Artur Duarte / 2015
Orlando demora-se na peregrinação… (à sua direita a baía…).
Talvez a calçada afinal se tivesse tornado mais íngreme...
Ele olha a copa dos plátanos e dos aceres (já foi verde a folhagem dos plátanos e dos aceres…). A folhagem pinta-se agora de um ocre dourado… e lentamente vai pingando a folhagem.… E a tarde ganha cor… e ganha ao mesmo tempo uma outra luz …




A calçada talvez verdadeiramente se tivesse tornado mais íngreme…
Orlando vive o momento de então como se sobre ele – sobre esse momento – se tivesse derramado um certo princípio de eternidade, e de uma nova ordem das coisas... E o céu é um amplo cenário… o cenário dos plátanos e dos aceres. 





M. Gama Duarte / 2016
... Mas Orlando consegue imaginá-lo – a esse céu – a estender-se… e a descer…  (descendo) – descendo tanto, tanto, até que se torne também o céu e o cenário dos seus pés… e da sua peregrinação.















M. Gama Duarte
Crónica escrita a 11 de Dezembro de 2011

sábado, 12 de março de 2016




Raminho
de Oliveira


(dois apontamentos)







1.º Apontamento:


. . .

No passado dia 25 de Outubro Maria do Rosário completou 95 anos (Maria do Rosário Duarte… – mulher que um dia me deu à luz).

Maria do Rosário… mas que é para quase todos: a tia Amália, a avó Amália… Ou a D.ª Amália, pela boca dos que não lhe são família… Ou ainda Maria do Rosário Duarte quando é o caso de falar, com toda a legitimidade que lhe assiste, a respectiva folha do Registo, em assento próprio, na Conservatória do Registo Civil.

Amália é nome de brincadeira antiga que em gaiata lhe puseram e se lhe pegou à pessoa para toda a vida…



M. Gama Duarte / 2016
(Instalação / cenário)

Título:
Ilustração para
Raminho de Oliveira
(… Um esplêndido dia de Sol
A prometer-se)
        























95 anos – idade que pesa no olhar de quem por ela tem estima… e lhe reconhece as virtudes, a energia que a anima, a lucidez… e lhe aprecia o sorriso e a bonomia.
Uma idade (os seus 95 anos) que pesa também nas fotografias mais recentes onde ela se abraça aos familiares mais próximos e aos amigos… – fotos onde ela se abraça aos momentos felizes (à vida).
. . .




M. Gama Duarte
(Extracto da introdução à crónica intitulada “Mães Grandes”, escrita a 12 de Dezembro de 2011).





M. Gama Duarte / 2016
(Instalação / cenário)

Título:
Ilustração para
Raminho de Oliveira
( O subtil Verde Místico - 1) 





2.º Apontamento:




Foto: M. Gama Duarte / 2016

Motivo:
Basílica da Estrela em Lisboa 
(Real Basílica  e Convento do Santíssimo Coração de Jesus) 














. . . 

A cúpula branca da Basílica sobressai sempre ao longe em dias assim, com a Estrela e a Lapa a seus pés.

Procurei-a (a cúpula branca da Basílica) e lá estava ela, ao longe… branca e batida pelo mesmo sol que em baixo se reflectia nas águas calmas do Tejo e trespassava o vidro a que encostava o meu rosto.

Absorto fixei o olhar, durante algum tempo, na sua alva cúpula (talvez naquela manhã ela me parecesse mais branca e mais solene do que alguma vez me parecera)… E a poder eu fazê-lo (fixar o meu olhar na alva cúpula da majestosa Basílica) porque eram outros os olhos, e não os meus, que atentos se fixavam no caminho… e também outras as mãos, e não as minhas, que firmes assumiam a responsabilidade do volante… num compromisso com esses olhos que eram outros e não os meus olhos...





M. Gama Duarte / 2016
(Instalação / cenário)

Título:
Ilustração para
Raminho de Oliveira
(O subtil Verde Místico - 2)
        







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M. Gama Duarte

(Extracto da crónica intitulada “Raminho de Oliveira”, escrita entre 5 de Fevereiro e 25 de Abril de 2012).