123456789

123456789

MENSAGEM AOS VISITANTES DO BLOG

Saúdo todos os que acedem a este meu Blog, venham ou não, de futuro, a tornarem-se visitantes habituais do mesmo.

Apraz-me contar com todos neste espaço de partilha.

domingo, 22 de maio de 2016




Reflexões de Cirilo...



e a sua descoberta do gato que queria ser
instrutor de voo




Em certas horas vividas pelo pacato e solitário Cirilo – horas de algum azedume –, ele questionava-se: “O que serei eu num próximo, ou num distante, amanhã ? ... E o que hoje mesmo, afinal, eu sou?. Eram as suas inquietações metafísicas… (ou não tão metafísicas assim).




M. Gama Duarte / 2016

Tema:
A memória,
o presente e o intemporal
                  



* * *


Uma vez mais Cirilo ali se encontrava sentado à mesa numa das esplanadas de café, que habitualmente frequentava na cidade onde havia nascido... E constatava (não seria, por ventura, a primeira vez que o assolava tal pensamento):
Ganhei um certo sentimento de afecto pelos objectos, e sítios onde me posso sentar… seja à mesa de uma esplanada, como é o caso (agora), seja à beira de um lago num qualquer jardim desta cidade”.

E estes pensamentos surgiam-lhe, não porque de imediato Cirilo associasse o mero repouso, ou o mero lazer, ao acto de se sentar… (não era essa a razão daquele seu sentimento de afecto pelos objectos, ou sítios, onde se podia sentar).

Cirilo associava esses objectos, ou sítios – tão comuns no seu cotidiano e onde se podia sentar (quaisquer que eles fossem) – a algo muito diferente. E ele tinha a explicação pronta (que lha pedissem – a explicação –, que ele logo a apresentaria): “É a atitude de esses objectos, ou sítios, me aceitaremou  o carinho de receberem o meu corpo”.

* * *




M. Gama Duarte / 2016

Tema:
A memória,
o presente e o intemporal
                  

























* * *

Era verdade que algo nessas coisas e nesses sítios lhe fazia lembrar os braços e o ventre da sua mãe... – os braços e o ventre da sua mão ganhando aquele jeito que por fim era o colo que aconchegaria Cirilo.
Aí, nesse colo, ou regaço, Cirilo verdadeiramente descansava e dormia o seu sono mais perfeito.

Os “colos, ou regaços” que hoje “aninham” Cirilo, não têm esse calor… O calor que neles sente é o calor que o seu próprio corpo produz (é o próprio corpo de Cirilo que aquece esses “colos, ou regaços”)… – por isso é um calor solitário.

Esses regaços: bancos e cadeiras de esplanadas de cafés, de Cervejarias ou de jardins, todavia são para Cirilo regaços onde não é fácil a sobrevivência. E Cirilo questionava:

O que serei eu um dia???... – lá longe (não sei daqui por quanto tempo ou por quantos anos, ou por quantos segundos)”. E mesmo sobre o presente Cirilo questionava:
O que restará de mim hoje?... (Sim!... – pergunto)
Estou sentado neste banco alto fixo ao chão, e o balcão dista do meu peito cerca de palmo e meio… e pergunto: o que resta de mim hoje de mim e ocupa, neste momento, este assento onde me sinto confortável?”

Cirilo, quando escrevia, recorria a miúde a uma linguagem metafórica. E por vezes confiava o que escrevia à leitura de um amigo. E num desses textos ,propósito deste tema, esse amigo leu:
Sobre o acento deste banco, talvez nada mais de importante se encontre que o indispensável de mim: aqueles pedaços da mente que me permitem o elaborar as ideias e autorizam a transmissão dessas mesmas ideias à mão que as descarrega na superfície branca desta folha de papel. E, para efeitos da escrita, a responsabilidade recai essencialmente no dedo polegar, no dedo indicador e no dedo médioPois são estes três dedos que asseguram o empunhar com firmeza o instrumento com que escrevo”.



* * *  

Daí por minutos já não encontraremos Cirilo sentado àquela mesa de café. O que resta de si abandonará aquela cadeira. Cirilo regressa ao mundo concreto logo que os seus pés reiniciem a caminhada (uma caminhada que será tão lenta quanto afoita… – afinal o que significa para Cirilo o tempo?...).



M. Gama Duarte / 2016

Tema:
A memória,
o presente e o intemporal
                  

























* * *

Cirilo olha-se. Soma-se palmo a palmo – faz a contabilidade ao que resta de si (ao que é)... Afinal ainda se encontra razoavelmente inteiro.
– “E do dia de hoje?... O que restará dele?” – Pergunta Cirilo à fivela do seu cinto ao mesmo tempo que confere se o cós das calças está situado conveniente. Cirilo quer uma resposta!.. (será ainda dia?... Será já noite?).





* * *



M. Gama Duarte / 2016
Cirilo olha o céu...
















... E, a enfeitar o azul, um círculo com um semblante de tal maneira diferente que não o informa sobre o que vê: se Lua se Sol.


M. Gama Duarte / 2016

























Assunto do Desenho:

O gato que desejava ser instrutor de voo, tal como o seu amigo (o gato Zorbas) que é um dos personagens da “Historia de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar” da autoria do escritor Luís Sepúlveda.    



Esse círculo roça um dos telhados: insinua-se num horizonte de telhas, de antenas combalidas, de chaminés num arfar mortiço... E um gato preto que farejava por perto resolve trepar a um décimo andar. O gato aproxima-se do círculo (que nem Lua nem Sol).
Entretanto o gato pára e espreguiça-se… e lambe, quase que libidinosamente, uma das patas… E prossegue. Entra por fim no círculo, ocupando o seu centro. E desta vez pára para se deitar.

– “O que lhe irá na cabeça daquele gato? – interroga-se Cirilo. E Cirilo vai-se esforçando na tentativa de, mentalmente, alcançar os intentos do gato… E mesmo que mais longe Cirilo não chegue, ou seja: à verdade, pelo menos Cirilo imagina. E nisto chega a uma conclusão:
– “Mais um felino com a ambição de vir a ser um afamado instrutor de voo”.






M. Gama Duarte

21 de Maio de 2016
       
         
                  
         

       

terça-feira, 17 de maio de 2016



Falar
de Clotilde



Mauro certa madrugada, após uma ronda pelos telhados do seu bairro e um sono leve, acordou com o pensamento em Clotilde.


M. Gama Duarte /2016
(Instalação)

Título:
Falar
de Clotilde

Apoio
Na resolução fotográfica:
Artur Duarte


























Clotilde tinha o significado, nem mais nem menos, de uma amizade antiga que Mauro partilhava com Carolino.
Carolino era um laçarote mecânico voador, e um amigo de Mauro já de longa data.
Carolino era uma criatura bem apessoada… simpática e bem falante.
Estes dois bons amigos – Mauro e Carlino – quase todos os dias se encontravam e conversavam. E esses encontros aconteciam tanto em quintais bem cuidados e soalheiros, como em traseiras ao abandono e sombrias de casas onde já ninguém morava. Lugares estes onde por vezes Clotilde se refugiava, passando temporadas sem ser vista. 


M. Gama Duarte /2016

Título:
Onde se terá
escondido Clotilde



Nesses encontros, Mauro e Carolino recordavam fabulosas tertúlias. E, por sua vez, cada um relatava entusiasticamente as suas novas e epopeicas aventuras.


E então nessa madrugada, quando o Sol já se preparava para espreitar na linha do horizonte, Mauro, por sorte, encontrou o seu velho amigo Carolino (o laçarote mecânico voador). E tendo Mauro nesse raiar do dia o pensamento em Clotilde, era razão para fazer o seguinte pedido a Carolino, que era um compulsivo falador:



M. Gama Duarte /2016
(Instalação) 
Título:
Mauro e Carolino
conversam
ao Sol raiar

Apoio
na resolução fotográfica:
Artur Duarte 

Vá, amigo… – fala lá hoje da nossa amiga Clotilde.





















Há muito que eu conheço o gato Mauro e o laçarote mecânico voador Carolino.
Eles também eram visitas habituais no quintal que pertencia à casa antiga onde em tempos, em Lisboa, eu morava.
Quando estes dois amigos por lá paravam, nesse quintal da velha casa onde eu morava, e dava conta da sua presença, sentava-me à mesa de trabalho da divisão da casa que me servia de estúdio, e observava-os… Observava-os e ouvia-os…
E muito eu ouvi dessas conversas ente Mauro e Carolino. Mas ignorando eu (e ainda ignoro) se eles tinham percepção de que não estavam sós.
Mas, Independentemente disso, ao longo de todos os anos em que vivi naquela casa, nunca deixei de ter o prazer de receber no meu quintal a visita daqueles dois invulgares amigos: Mauro e Carolino.
Ouvi-os falar de Clotilde… várias vezes os ouvi falarem da sua amiga Clotilde.
Uma das vezes foi nesse fim de madrugada em que Mauro pediu a Carolino:
 – Vá, amigo… – fala lá hoje da nossa amiga Clotilde. Era só mais uma vez entre outras
E Carolino falou de Clotilde, fazendo a vontade a Mauro.


E hoje eu também poderia falar de Clotilde.
Mas o texto que aqui publico hoje foi escrito no dia 20 de Novembro do ano de 2007. E Intitula-se:

O Paradigma de Clotilde… E é datado de uma altura em que ainda não era comum falar-se em paradigmas… ou seja: antes do caso paradigmático, muito badalado anos depois, em que um gorgulho decidiu mudar de vida e o plano que pôs em prática foi abandonar o feijão-frade e ir-se alojar numa bolota.  



M. Gama Duarte /2016
(Instalação)
Título:
Mauro e Carolino
conversam
ao Sol raiar

Apoio
Na resolução fotográfica:
Artur Duarte  




o Paradigma de Clotilde



















... E obviamente que um dia teria que falar de Clotilde: a barata amiga de Mauro e Carolino.
E é certo que as baratas não são todas iguais…
E esta – a barata amiga de Mauro e Carolino (Clotilde) – é um dos casos sobre o qual é justo dizer-se que não é uma barata como as outras (ela é uma barata diferente… – não se inclui no comum das baratas).
Ela é um arquétipo: a primeira barata de uma nova geração de baratas… Um dia, no futuro, todas as baratas serão como ela.
E que se cuidem as formigas, as cigarras, as joaninhas… etc. … Pois a todas Clotilde supera em esperteza, arte e elegância.
Clotilde dança, toca piano e fala frantuguês (a língua franco-latina).
Clotilde é, indiscutivelmente, um prodígio…

Barata: uma palavra (uma palavra-nome…) – palavra significante que, ao ser pronunciada, logo nos conduz a uma precisa imagem: aquele ser pequenino que todos conhecemos.
Porém, a palavra barata não apenas (ou não fatalmente) nos condiciona a mente num sentido em que se nos afigure de imediato, e só, a barata dos compêndios de zoologia com belas encadernações rígidas, e dos coloridos e lustrosos cromos da História Natural de que fui coleccionador com direito a caderneta.

Convivemos no nosso cotidiano com uma determinada dimensão de significantes e significados em que a língua, falada e escrita, não pode renunciar ao seu compromisso histórico.
E nesta vertente, a palavra barata associa-se a referências de excelência. Como exemplo: a antiquíssima “Livraria Barata” em Lisboa, fundada em 1732; Rua Barata Salgueiro, onde se encontram a Sociedade Nacional de Belas Artes e a Cinemateca Nacional, também em Lisboa.
E se certo é que “baratas são carochas”, porque não relembrar a doce e ancestral relação (fabulosa relação) entre a carochinha e o João Ratão.


 
M. Gama Duarte /2016

Título:
Afinal
onde se terá
escondido Clotilde




















M. Gama Duarte

20 de Novembro de 2007






sexta-feira, 13 de maio de 2016



Cesina Bermudes

e os
Bebés-Cesina 


Um
testemunho






Conheci a Dr.ª Cesina Bermudes no ano de 1986.

Como médica – e no exercício da sua especialidade (obstetrícia) – foi ela que acompanhou as duas gravidezes da minha mulher (Rosa Maria Duarte). E, no final dos nove meses de gestação de cada um dos nossos dois filhos, foi ela também, a Dr.ª Cesina Bermudes, a parteira que clinicamente os ajudou a virem à luz. 


Dr.ª Cesina Bermudes
(Foto encontrada na net) 















As mãos generosas, sábias, experientes e expeditas da Dr.ª Cesina Bermudes, foram assim as primeiras mãos que directamente tocaram os nossos dois rebentos (o Daniel e o Artur).

Tive o privilégio de assistir a esses dois maravilhosos momentos porque, prévia e oportunamente, a Dr.ª nos informou, a mim e à minha mulher, sobre essa irrecusável possibilidade. E assegurou-nos que a oportunidade era impar… E a mesma mensagem Cesina a transmitia a todos os pais. E mais lhes dizia: o pai, além de assistir, na medida do possível deve ao mesmo tempo ajudar ao parto. E foi o que veio a acontecer quando, a convite da Dr.ª Cesina, chegou a vez de eu ter as minhas duas oportunidades.
Após equipado e esterilizado, lá fui ao lado da Dr.ª Cesina, acompanhando os seus passos, até ao interior do bloco de partos da clínica. E no momento certo, compenetrado, sereno e ciente da importância do acontecimento, prestei a minha colaboração.

* * *

Todo o processo era conduzido zelosa e criteriosamente pela Dr.ª Cesina, sendo-lhe prestado todo o necessário apoio pela equipa de enfermagem que na altura se encontrasse ao serviço.
E quanto ao papel que me foi incumbido, sob a orientação da extraordinária médica tive nas minhas mãos alguns dos instrumentos que ela veio a utilizar no decorrer de ambas as suas intervenções como parteira... E hoje, recordando esses belos momentos, posso afirmar que de facto colaborei (apesar da colaboração por mim prestada não mais ter sido que simbólica… pois a responsabilidade que me tocara era a de simplesmente ir entregando nas mãos da D.ª Cesina, um a um, à medida que mos solicitava, os necessários instrumentos que me confiara).     

* * *




A Dr.ª Cesina Bermudes tinha o seu consultório, e residência, a dois passos da esplanada onde desde há um quarto de hora tranquilamente me encontro. E aqui, e neste preciso momento, sobre simples folhas de papel vão surgindo as primeiras palavras e as primeiras linhas desta minha crónica.




M. Gama Duarte / 2016

Motivo:
Arvoredo das Avenidas Novas
(Lisboa)























Até hoje várias vezes aqui me sentei, nesta esplanada, debaixo deste arvoredo gigantesco (imponente) que me vai refrescando com as suas largas sombras. E por aqui (sentado), ponto por ponto, vou modestamente dando alinhamento a tudo o que, para lembrança, acabará por ficar registado sobre os pedaços de papel que as minhas mãos vão desencantando ora nos bolsos, ora no meio da eterna barafunda reinante no interior da velha pasta que sempre me acompanha nestas viagens ou nestas peregrinações.

* * *





Sempre que aqui volto, gosto de ter a oportunidade de me sentar a esta mesa… faz-me bem sentir o aconchego que ela me proporciona… e por isso a esta mesa me habituei… e para aqui imbico com a simples certeza de que o que procuro, e encontro, é simplesmente a tranquilidade e o recato desde amplo espaço ao ar livre.

Todavia, não obstante a circunstância de me encaminhar para esta esplanada, a paragem é por um período de tempo que não só não determino (não lhe deito contas), como, sem dúvida, será breve. Prosseguirei a minha peregrinação… como bom e legítimo filho que sou desta magnífica cidade… (nasci alfacinha…). Porém não fui (não sou) mais um de entre os tantos Bebés-Cesina… Não que tenha nascido cedo de mais para que pudesse ter tido semelhante privilégio… Muitos alfacinhas, antes e depois de mim, nasceram Bebés-Cesina…

* * *

Mais minuto menos minuto, levantar-me-ei desta cadeira. Transferir-me-ei para outra paragem. Lugar que me espera - que me espera inteiro na companhia dos meus papeis, das minhas esferográficas, lapiseiras, e dos meus pensamentos (das minhas ideias e recordações). Lá me irei recolher e lá darei prosseguimentos a esta minha crónica… Lugar esse (um outro) que fica mais perto do lugar onde pela primeira vez vi a Dr.ª Cesina Bermudes.

* * *


… E finalmente nesse Lugar: o N.º 185 da Av.ª Elias Garcia (A Sereia – Restaurante Cervejaria). Retiro onde chego e me sento… – me sento bem (nos restaurantes e cervejarias sempre gostei de me sentar em bancos altos alinhados a uma distância do balcão de mais ou menos palmo e meio… – isto quando se dá o caso de o cliente desses bancos dispor – pois ninguém desconhece que hoje em dia, infelizmente, em poucos restaurantes e cervejarias ainda sobrevive esta tradição dos bancos altos disposto a uma distância do balcão de mais ou menos palmo e meio...


















Na foto:

Imagem fotograficamente captada do painel cerâmico existente na parede de fundo do restaurante “A Sereia” (Lisboa).
Foto permitida, por gentileza, pelo Sr. Miguel.   





... E é este o lugar (o banco alto que me esperava e que se distancia do balcão cerca de palmo e meio). Lugar que venho a encontrar aquecido só por nele ter pensado antes como um lugar onde me sento bem… Mas também um lugar onde me sinto bem… Onde também bebo e como bem… Onde penso bem… e escrevo.

E sentar-me-ei no primeiro banco… logo à entrada… E aí ficarei todo o tempo… e geograficamente mais perto de onde outrora a Dr.ª Cesina tivera o seu consultório e a sua residência: Av.ª Santos Dumont – a “dois passos” de distância deste lugar onde em vários sentidos me sinto confortável… e um lugar quase no coração da cidade…

Volta e meia levanto-me, como que num deixar descair o corpo, para me caminhar até à porta que fica a três passos do banco onde me instalo… E acendo um cigarro (mas não sou grande fumador…).  
Por vezes encaro com um outro fumador (talvez mais fumador que eu) que também procura a porta pelos mesmos motivos que eu a procuro… e que, com os seus particulares tiques, não muito diferentes dos meus, igualmente queima um cigarro… E pontualmente chegamos a uma curiosa, ou trivial, troca de palavras (uma circunstancial conversa) – o que não deixa de ser reflexo do bom ambiente presenteado pela casa.
E dali olho à esquerda e os meus olhos alcançam ainda uma esquina do majestoso e emblemático Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian, e ainda uma boa poção da avenida que o ladeia do lado da entrada principal… A saber – se que há quem ainda não o saiba: Avenida Calouste Gulbenkian (Lisboa).

E mais uma vez, em directo dos arquivos da minha memória, ressaltam as estimáveis lembranças que guardo da Dr.ª Cesina Bermudes… E penso: se neste momento ousasse pôr-me a caminho, percorrida que estivesse a distância de dois quarteirões para lá daquele troço de avenida, daria comigo defronte da porta do prédio onde outrora, após um simples toque no botão do 1.º andar, era previsível ouvir a voz Dr.ª Cesina Bermudes a perguntar:

– “Vai subir ou quer que eu desça?”





M. Gama Duarte /2016
(Foto-Selfie 1) 

























A Dr.ª Cesina amavelmente recebia no seu consultório a minha mulher e as outras senhoras grávidas. E logo que se manifestassem os sinais de que o esperado momento estava próximo, podiam as grávidas contar com a Drª Cesina qualquer que fosse o dia, e a qualquer hora que fosse da manhã, da tarde ou da noite.  

A Dr.ª Cesina era uma profissional inteiramente comprometida – de corpo e alma – com o exercício da sua profissão… Pois assumia e executava o seu trabalho com profundo sentido de missão.

Era com notória, mas modesta e discreta satisfação, que a Dr.ª Cesina dizia que todas as mães se tornavam suas amigas após serem assistidas e acompanhadas por si até ao nascimento dos respectivos bebés (os chamados bebés-Cesina).  

* * *




Eu e a minha mulher havia-mos recebido as melhores informações da Dr.ª Cesina. E assim – por  conselho e indicação de quem muito bem nos havia falado da Dr.ª Cesina – chegámos ao seu encontro. 

Recordo-me bem das vezes que tocámos à campainha da residência e consultório da Dr.ª Cesina. Algumas dessas vezes aconteceram por volta das três e meia da madrugada. E duas dessas aquando precisa e verdadeiramente se manifestaram na Rosa Maria (minha mulher) os sinais da entrada em trabalho de parto. A residência e consultório da Dr.ª Cesina Bermudes era o 1.º andar de um prédio na Av.ª Santos Dumont.
Surge-nos então, através do intercomunicador, a voz da Dr.ª Cesina… Cesina nestas ocasiões sempre reagia com a perfeita noção da importância de cada minuto e de cada segundo – noção apoiada na sua ciência, disponibilidade e prontidão a que nos habituava: o sentido prático; o pragmatismo… a argumentação por vezes lacónica, mas clara e denotando-se no global das suas atitudes  uma solidariedade e afecto que nos sensibilizava e conquistava (era certo que nos inspirava uma especial confiança)… e sendo também uma das suas qualidades a capacidade o saber ouvir E esta sua maneira de ser, e estar, implicava o dispor de uma boa parte do seu tempo em benefício do seu próximo.


E como eu dizia, nessa tal madrugada, por volta das treze meia, ao nosso ouvido chegava, através do intercomunicador – que não tardou dar sinal –, a voz da Dr.ª Cesina. E as suas palavras simplesmente foram as seguintes:
– “Desço já!”. 

A sua intuição certamente a havia informado que no caso era para descer. E quase nenhum tempo nos fez esperar – apareceu passados escassos minutos… e cumprimentou-nos com um atencioso, sobejo, e sonoro Boa Noite… E replicou: “Vamos lá!”. De seguida avançou diante de nós num regular e enérgico ritmo em direcção ao táxi que aguardava.
(Conhecíamos-lhe já, desde sempre, aquele jeito da passada curta e frenética).
De mão certeira e rápida accionou o manípulo da porta traseira do táxi e abriu-a:
– “Boa noite Sr. Motorista… e com licença!” – disse. Entrou e sentou-se. E eu e a minha mulher entrámos a seguir e acomodámo-nos.
E de novo se fez ouvir a voz de Cesina:
– “Sr. Motorista, é para a Clínica Cabral Sacadura rapidamente, por favor…Esta senhora entrou em trabalho de parto e eu sou a médica dela”.




M. Gama Duarte /2016
(Foto-Selfie 2) 






A Clínica Cabral Sacadura localizava-se (e localiza-se ainda hoje) na Av.ª António Augusto de Aguiar, perto do Parque Eduardo VII, em Lisboa (o percurso é um saltinho e praticamente a direito… – isto à parte os condicionamentos normais impostos pela sinalização de qualquer meio citadino.
E a certa altura, já a meio do percurso, a Dr.ª Cesina dá novas e precisas instruções ao motorista do táxi:
– “Sr. Condutor, vá em frente!”
E o condutor do táxi, atento ao trajecto, reagiu advertindo:
–“Sr.ª Dr.ª:, em frente não posso… é trânsito proibido”. Impunham-se claras restrições.  
E Cesina insistiu:
–“Não faz mal Sr.º motorista… vá em frente, que é mais rápido…”
Mas o taxista, mantendo a devida prudente, alude aos possíveis riscos de desobedecer à sinalização instalada:
–“Oh S.ª Dr.ª, então e a polícia”?
E Cesina de novo insiste, argumentando:
–“Não se preocupe, Sr.º motorista… siga em frente… é à minha responsabilidade… E além disso os polícias a esta hora estão todos a dormir”. 


* * *




A Dr.ª Cesina era um ser humano que reunia em si características verdadeiramente únicas, incluindo um sentido de humor explícito que se harmonizava com os aspectos mais sérios ou objectivos. E este equilíbrio revelava-se até no que de mais simples fazia parte do seu dia-a-dia.
Pouca ou nenhuma diferença lhe fazia ser de dia ou ser de noite. Ela dizia: “Durmo quando tenho sono, e quando posso dormir”. Argumento do qual se extraía uma noção e filosofia de vida que assentavam no princípio de que acima de tudo se devia observar, e levar à prática, o que tinha de ser feito de bom independentemente da hora do dia ou da noite.

E nesse tempo, conhecendo nós a Dr.ª Cesina como já a conhecíamos, não nos surpreendemos aquando daquelas vezes, a horas desertas (a meio da madrugada e no silêncio), lhe fomos tocar à porta e a encontrámos a pé. (Porém, ainda à distância, ao entrarmos na rua, tinha-mos dado conta da presença de luz nas vidraças do seu consultório)…
… Bem como não nos surpreendemos quando numa dessas vezes à conversa, e já a caminho da clínica, com muita simplicidade e espontaneidade ela nos informou:
– “Deixei a arrefecer uma panelinha cheia de sopa que acabei de fazer há pouco”. (Seria nessa altura também umas três e meia da madrugada).

* * *

Cesina era de uma franqueza enternecedora – traço do seu modo de ser que não era incompatível com a sua determinação e firmeza que natural e pertinentemente se impunham e se faziam respeitar. A par destes aspectos da sua personalidade, outros se evidenciavam que tinham a ver com a sua simplicidade e as suas resoluções práticas.
Achava-mos graça, por exemplo, aos lembretes que ela improvisava, a partir de pedacinhos de papel escritos à mão, e pendurava como que num estendal em miniatura junto à fechadura da porta do seu apartamento. E, relativamente à condução, ela tinha a sua carta mas sentia gosto nos seus percursos a pé… e era esta a forma como normalmente se deslocava.
Porém, conhecendo-se todos, ou apenas parte dos aspectos marcantes da personalidade e da vida da Dr.ª Cesina Bermudes, significa que se sabe que a Dr.ª Cesina Bermudes foi uma mulher de vanguarda… Vista sempre nas linhas da frente nas lutas em prol da garantia dos direitos humanos. Por exemplo foi da boca da Dr.ª Cesina que pela primeira vez ouvi falar de Bio-Ética.           



M. Gama Duarte /2016
(Foto-Selfie 3) 





– “As minhas clientes acabam por se tornar minhas amigas” – dizia Cesina. E connosco não poderia vir a ser diferente. Por isso passámos a visitá-la de tempos a tempos. E sempre que possível levava-mos connosco os nossos dois rapazes.
Eram visitas que agradavam a Cesina, e ela agradecia. Além da prova de estima e amizade que para ela essas visitas representavam, os reencontros com as crianças que lhe tinham passado pelas mãos ao virem ao mundo, clara e naturalmente lhe proporcionava satisfação. E parte dessa satisfação relacionava-se com a oportunidade de acompanhar e avaliar o desenvolvimento dessas mesmas suas crianças.

Sempre que a visitava-mos tínhamos prazer em lhe levar uma pequena lembrança. Sabia-mos as regras: deveria ser algo simplesmente simbólico. Mas no início não deixou de ser tarefa delicada decidir qual a oferta a levar à Dr.ª Cesina (acertar com a prenda que seria mais do seu agrado)…Pois não nos poderíamos esquecer daquele seu aviso: “Não se preocupem com prendas, porque eu não preciso de nada”.
Contudo creio que, ao fim e ao cabo, ela receava fazer-nos alguma desfeita não aceitando nada. E um dia condescendeu e revelou-nos.
– “… Para que fiquem a saber, uma coisa que eu sou é gulosa… Gosto de chocolates!... Portanto se fizerem questão de me oferecer alguma coisa podem trazer-me chocolates que eu aceito… e se forem chocolates da “Toblerone”, melhor ainda… – é o presente perfeito para mim”.

* * *


A Dr.ª Cesina Bermudes era de uma invulgar cordialidade, e de uma verticalíssima serenidade.
A minha mulher durante os períodos de gravidez não faltava às consultas de rotina de obstetrícia que marcava no Hospital de Santa Maria.
Era em Santa Maria que, através do Sistema Nacional se Saúde, Rosa Maria fazia todos os exames e todas as análises necessárias ao normal acompanhamento de uma gravidez.
A Dr.ª Cesina tinha conhecimento e concordava plenamente com esse acompanhamento complementar no hospital, achando-o sensato e de absoluta utilidade (portanto indispensável).
– “A Rosa faz muito bem!...” – comentava a Dr.ª Cesina.
E quando Rosa Maria lhe falava dos procedimentos que tomava segundo as recomendações do obstetra do Hospital, Cesina atentamente ouvia e com a cabeça ia acenando que sim. E era evidente a sua postura de respeito pelo desempenho dos seus colegas de profissão, não pondo em causa as suas orientações e conselhos.



M. Gama Duarte /2016
(Foto-Selfie 4) 














Todavia Cesina no espaço do seu consultório reservava-se-lhe lugar, e legitimidade, para a sua palavra. E sempre que no seu entender se justificasse algo acrescentar, abertamente dava as suas indicações e conselhos:
– “Faz muito bem, Rosa!… Claro que sim – como o médico do hospital lhe disse que deve fazer está bem Mas também será bom que faça o seguinte…” – e então seguiam-se as recomendações de Cesina.



M. Gama Duarte /2016
(Foto-Selfie 5)






M. Gama Duarte /2016

(Foto-Selfie 6) 


  











...
... ...



Nas fotos-Selfie:
Ao cento (imagem central) desenhos de Almada Negreiros publicados no Livro MATERNIDADE - 26 desenhos de Almada Negreiros (texto de Ernesto de Sousa), editado pela Imprensa Nacional Casa da Moeda na colecção colecção arte e artistas.
Em baixo, a aparecer à direita, tela de 2016 pintada a óleo, da autoria de Rosa Maria Duarte.

      

Tela de Rosa Maria Duarte /2016
Título:
Liberdade





























* * *
* * *  * * *

Cesina revelava-se aquela pessoa que mantinha uma compostura ética exemplar… E adorava o seu pai.



Dr. Félix Bermudes
(Foto encontrada na net)      

O seu pai, o Dr.º Felix Bermudes, foi a sua principal referência. Ele foi um homem notável. E Cesina no seu consultório, na parede por detrás da cadeira em que se sentava à sua secretária, tinha uma fotografia do seu pai em estilo retracto e em tamanho real.









Há dias voltei à net com intenção de revisitar (reler) as informações que em tempos já havia encontrado sobre a Dr.ª Cesina. Não só localizei as informações que já conhecia como dei conta de que algo mais era possível encontrar sobre a Dr.ª Cesina.
É certo que não sou grande navegador nestas águas (a net): a mão foge-me facilmente do leme… e as velas da minha insignificante embarcação (ou exígua jangada) ficam de banda… Denotando tais dificuldades que a minha mestria muito deixa a desejar. 

* * *
* * *  * * *







A minha mãe (Maria do Rosário Duarte) tive-a até aos seus 95 anos.
Recordo-me nitidamente de que ela se orgulhava da sua longevidade… Mas nunca ela acreditando que chegasse a viver tanto tempo (95 anos).







…E em cada vez que alguém lhe perguntava a idade, a sua resposta centrava-se apenas na data do seu nascimento (25 de Outubro do ano de 1916)… Dizia-o e repetia-o com firmeza, sem que a voz o mais tenuemente se lhe embargasse… e sem a mais breve dúvida ou hesitação… E era como se de tudo o mais se tivesse esquecido (mas lá da data certa do seu nascimento, isso não!... – a data não se lhe havia varrido da memória).


Na Foto:
Maria do Rosário Duarte, nos anos 80, sob a copa do limoeiro que existia (e talvez ainda exista) no quintal da cave que ela habitava no N.º 26 da Travessa das Almas – Lisboa (prédio actualmente remodelado).   



O facto de Maria do Rosário ter a data do seu nascimento bem fixada, e de a repetir, talvez em si fosse a forma prática e infalível de revelar a idade que tinha…Poupando-se assim ao esforço de somar todas as primaveras vividas.
Também Maria do Rosário sabia (naturalmente o sabia) que o lugar, a hora, o dia e o ano do nascimento, são factos que se unem em testemunho relativamente a um acontecimento irreversível. E se erro não apresentar o que ficou escrito no registo para memória e certificação futura, é só fixar-se o lugar e a data constante da página pessoal do registo. E, de resto, é fazer-se as contas.

* * *
* * *   * * *





Numa crónica que intitulei “Mães Grandes”, em parte inspirada na minha mãe mas onde falo em geral na figura da mãe (escrita em 12/12/2011), obrigatoriamente teria que incluir a pessoa da Dr.ª Cesina Bermudes (também ela foi uma Mãe Grande).
Exemplos de Mães Grandes também existem na pessoa de mulheres que foram (ou são) Mães Grandes mesmo sem o seu corpo alguma vez ter dado à luz… E inclui-se nesse imenso grupo de mulheres a Dr.ª Cesina Bermudes.
É impossível falar da Dr.ª Cesina Bermudes sem um enorme sentimento de gratidão. Para além da sua evidente competência profissional (atenta, conhecedora e resoluta, a que acrescentava os seus métodos prático, carinhosos e eficazes), era notável a sua agilidade intelectual.
Contudo exprimia com simplicidade a sua flexibilidade e capacidade de cedência à opinião do outro, como, por exemplo, era o caso da palavra que saía da boca futura mãe.
Perguntava a Dr.ª Cesina:

– “Então, minha filha… tem feito como eu lhe disse?” – referindo-se a Dr.ª a uma determinada indicação no âmbito do acompanhamento clínico que estava a fazer à grávida em questão. E caso a grávida respondesse que não tinha feito rigorosamente daquela maneira mas sim de um jeito, um pouco diferente, ao qual melhor se adaptava, Cesina por segundos detinha fixamente o olhar na mulher que tinha à sua frente. E após avaliar conscienciosamente o que havia ouvido da boca da futura mãe, comentava:
– “Também está bem da forma como você fez”.

* * *
* * *  * * *



Dr.ª Cesina Bermudes, em jovem
(Foto encontrada na net)
A Dr.ª Cesina Bermudes, como antifascista que foi, manifestou-se em oposição à ditadura implantada em Portugal antes de 25 de Abril do ano de 1974, e, em consequência disso, passou algum tempo presa. Porém, a Dr.ª Cesina dizia que não lamentava os tempos passados nos calabouços da polícia política (pelo contrário…) E justificava o facto de não lamentar esse tempo com o seguinte sentido (positivo) da provação:
– “Até nem foi mau… – acabei por arranjar clientela entre as reclusas”.










Por todas as razões considero que a Dr.ª Cesina Bermudes foi uma das inúmeras Mães Grandes deste mundo.

A Dr.ª Cesina Borges Adão Bermudes nasceu no dia 20 de Maio do ano de 1908 em Lisboa. E no dia 09 de Dezembro do ano de 2001 deixou-nos para, em merecida ascensão, viajar até ao lugar onde em espírito descansam todos os que na Terra nobremente cumpriram a sua missão a bem da humanidade.




Nossa Senhora grávida
(imagem encontrada na net)

Havia quem intitula-se a Dr.ª Cesina de a parteira dos pobres. E, em verdade, factos se conhecem que fundamentam semelhante denominação – factos indicadores da sua generosidade e singular desapego relativamente aos haveres materiais.   
E a dr.ª Cesina, já com setenta e tal anos de idade, ainda acalentava o projecto de atravessar o Atlântico, rumo a Cabo Verde, para aí dar a conhecer, e ensinar, o parto sem dor. E ajudar as mães.








Esta crónica é uma simples e pessoal homenagem que presto ao grande ser humano (a grande mulher) que foi a Dr.ª Cesina Borges Adão Bermudes.



E é pouco o que nestas linhas deixo registado, comparativamente com o muito que fica por dizer, relativamente à maravilhosa experiência que eu, a minha mulher e os nossos filhos, tivemos com a Dr.ª Cesina Bermudes, e ao privilégio que foi o termos com ela convivido.    



M. Gama Duarte
01 de Maio de 2016